quinta-feira, 2 de julho de 2009

Do macho

Um cara está viajando de navio, o navio afunda, ele se salva e, depois de dias à deriva, é levado pelas ondas a uma ilha deserta.

O fulano, lógico, se desespera - mas eis que surge na praia outro náufrago: Juliana Paes, em trajes indecentes. O pânico dá lugar ao êxtase. A única atividade dele na ilha passa a ser comer a Juliana Paes. Toda hora. Todo dia. De todos os jeitos possíveis.

Seis meses depois, ainda nessa rotina, a Juliana Paes repara que ele anda tristonho:

- O que está acontecendo, meu amor?
- Nada, nada - ele responde, cabisbaixo.
- Tem algo que eu possa fazer para melhorar seu astral?

Ele pára, pensa. Vira-se para ela:

- Você pode se vestir de homem, botar uma barba postiça e vir andando lá do finalzinho da ilha?

A Juliana Paes, coitada, não entende bulhufas. Cada um com a sua tara, ela pensa. E faz o que ele pede. Ela vem caminhando lá do finzinho da praia, fantasiada de h0mem, e ele vai ao encontro dela. Ele diz:

- Cara, adivinha quem eu estou comendo? A Juliana Paes!

A piada é antiga, e os anos alteram somente a mulher que habita essa fantasia. Se você é homem, já riu à beça dela. Se você é mulher... bem, se você é mulher e quer entender a cabeça dos homens, comece por esta piada. Tenha certeza: não são apenas os machistas que acham graça.

Inércia

"Un esprit qu'on n'exerce à rien devient lourd et pesant dans l 'inaction."
Rousseau

Palco

O jovem toma a comédia por tragédia, e nisso consiste a causa de boa parte do seu sofrimento.

Do amor

O amor é um adversário tão imbatível quanto a morte. É tolice acreditar que se possa derrotá-lo, seja pelo combate, seja pelo abandono. Uma vez no campo junto a ele, a vitória não escolhe lado - o que não exclui a possibilidade de que se possa sofrer uma derrota prazerosa.

Bicicleta

Descobri-me igual a mim mesmo aos 11 anos de idade, moleque atrevido, transportei-me para aquelas manhãs geladas de junho, flanava de caloi vermelha pelas ruas ocas de Brasília, ao som de Aerosmith. Pensava na minha primeira ex-namorada, déspota da minha adolescência e das minhas incursões iniciais no corpo feminino, essa carne sagrada que, para um menino, constitui a prova suprema de generosidade divina para os pecadores desta terra. Começava a sentir ali as asperezas da pedra-pomes do amor. Não era uma dor feita somente de sofrimento; havia nela o prazer de me sentir em mim, aquela sensação era o meu berço, embalava sonhos confortáveis de plenitude, da união entre os pedaços de tudo que me constitui, sentimento de autossuficiência, de que aquela dor me bastava e eu bastava a ela, nós dois juntos, na comunhão entre o meu ser e toda a verdade sobre ele, num lugar onde não há finitude, incerteza, consciência ou desespero - apenas a serena satisfação de estar no mundo, de que tudo está como sempre foi e sempre deverá ser.

Seus olhos

Ela e seus olhos esverdeados bem sabem os que os meus tentavam dizer. Ladinos, esses olhos esverdeados. Fugiam em direção ao horizonte, preferiam o nublado do dia à luz apaixonada do meu olhar, deixando em seu lugar um sorriso de poucos dentes. Restava concentrar-me na leitura dos movimentos suaves dos seus lábios, esquecer o que a sua profusão de palavras bem concatenadas tentava esconder, decifrar o que o canto da sua boca me comunicava, só eu e ela. Fico sozinho com suas palavras e as minhas dúvidas, longe da sua alma e preso aos meus desejos de anular-me nela, entregando-me aos mistérios que se escondem sob aqueles olhos esverdeados.

São Paulo

Perco-me pelas ruas frias da noite de São Paulo, caminhando em calçadas que não me levam a lugar algum, por esquinas que se esquivam do meu olhar, buscando a solidão que habita o concreto, quero me misturar a ela, unir minha solidão à solidão dessa cidade sem alma. Minha solidão anseia por outra, amante insegura que precisa do outro para se sentir humana. Vim a São Paulo à procura do que eu sabia que não estaria aqui, do que talvez não esteja em nenhum lugar, que se esconde em becos sujos da alma, recantos podres e pestilentos, dos quais eu guardo distância, minha sanidade depende disso.

Talvez eu quisesse sofrer a rejeição que me levasse de volta ao pedaço da mim que pulsa em silêncio, onde estão os sentimentos de abandono e de perda, de ressentimento. Neurose estúpida, ela diz. Sim, eu respondo, isso tudo está no que é mais íntimo e singular em mim mesmo, voo solitário ao fundo do que nunca vai me abandonar: minha infância.