Nos comerciais que vão ao ar nos canais de Marabá, as imobiliárias oferecem dois atrativos para tentar vender seus novos apartamentos: água e luz.
"Venha morar com água e luz!", é tudo que o locutor diz, como quem anuncia uma promoção das Casas Bahia.
Não somos a Noruega. Dúvidas, pergunte a quem derrete desde sempre no calor do Pará, mastigado por muriçocas gordas como vacas. E vive sem água e luz.
Por aqui, não é difícil encontrar.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
terça-feira, 28 de julho de 2009
Trilha rumo ao presente
Cá estou eu, já dentro da gaiola que voa, enlatado no meu cantinho sem piar, imaginando quais espécimes vou encontrar na selva onde o Brasil enterrou seu passado. Quais Chibingas estarão lá? Quais Zés Parafinas me aguardam? Haverá olhos para enxergá-los, tolerância para entendê-los, coração para senti-los? Serei eu capaz de apreender a verdade deles e do que as matas insinuam aos sussurros, lamentos verdes de esquecimento e ternura?
sábado, 25 de julho de 2009
O título
Eis que finalmente nos encontramos, eu estava fugindo dele há anos, esse danado, não adianta, ambos sabíamos que nossa união era inexorável, uma certeza dos anos, ele viria quando eu estivesse pronto e ela viria com ele, viria assim como viriam os êxtases do verão, as negras dores da noite, a exaustão mútua da busca. Apareceu como nos meus delírios; sorrateiro, deslizando pelas minhas sombras, larva nos meus olhos, sem que eu percebesse a iminência da sua presença - um fantasma que se materializa porque se acredita nele. Aproveitou-se do Borges e usou as palavras dele para chegar até as minhas, até que seus propósitos se dissolvessem nos meus, nossos espíritos se tocassem asperamente no ar avaro das alturas, de modo que eu precisasse dele para respirar, oxigênio para me manter vivo nos céus: ele, o título.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
quinta-feira, 23 de julho de 2009
O barro do Maranhão
José Sarney é um escritor barato. Nos sebos de São Luís, seus livros custam 9 e 90. Ficam nas prateleiras de promoção.
Hoje à tarde, entrei num desses sebos. "José Sarney?", perguntei à atendente. A mulher, percebendo minhas intenções, gargalhou. Estão ali, ela disse, apontando a prateleira mais infame de qualquer sebo: a dos livros que voltaram à venda ainda inviolados, aqueles que ninguém quis, que falharam em cumprir sua missão no mundo, que de tão encalhados e ordinários são oferecidos ao preço de guaraná Jesus.
Nenhum autor, por pior que seja, merece esse destino. Nem mesmo José Sarney. Resolvi então fazer a boa ação do dia - resgatar dois livros de Sarney daquele cemitério das letras, onde até um imortal sofre sua pena eterna às traças, como se fosse um filho qualquer do Maranhão. Havia três títulos: um de poemas, outro de contos e o último de crônicas. Apanhei o de poemas (Os Maribondos de Fogo) e o de contos (Norte das Águas). O de crônicas eu deixei para trás: sou caridoso, mas nem tanto. Talvez compadecido, o caixa me deu um desconto. Morri em 15 reais. Escondi os livros numa sacola e saí de fininho do sebo.
Corri ao hotel, ansioso em descobrir logo o borogodó literário de Sarney. Respirei fundo, perseguinei-me e pedi desculpas ao Borges, cuja antologia pessoal me fazia companhia até então. Decidi começar pelo livro de poemas. Maribondos de Fogo. Que imagem poderosa, pensei. Perdi-me nessa metáfora. Suspeito que o maribondo esconda algum desejo reprimido, envolvendo ferrões e a figura masculina ardendo em fogo. Hum. Talvez represente a ausência do pai. Ou talvez ele tenha se confundido com um vaga-lume.
Reforço minhas suspeitas quando leio que os maribondos de fogo "sangram, picam e devoram". Eis aí uma influência clara de Rimbaud, o gêmeo francês do maribondo brasileiro. Kid Sarney parece mesmo estar à procura do pai, olhando o mundo como criança. Repare na inocência destes versos:
Os bois rodavam,
a moenda gemia
e meus olhos não sabiam.
As reminiscências da infância prosseguem mais adiante. O estilo é áspero, sofisticado:
Eu lembro
as coisas da terra,
as capineiras,
as folhagens,
a mamorana,
o andrequicé,
as encostas de cana-roxa
e as vassouras de botão.
Constrangido, passei a virar as páginas em desespero, buscando algo de algum valor estético, uma rima surpreendente, uma símile, qualquer coisa. Nada. Continuei me deparando com a figura do pai:
O bicho do homem nasce
se cria para morrer.
Trabalha sem descansar
atrás do que vai comer,
arruma mulher e cria
no canto duma morada:
dois corpos numa só vida
e neles unindo o homem
outros homens vão gerar.
Outros homens vão gerar. José Sarney de fato tem predileção por ferrões e varões, parece perseguir a segurança masculina. Talvez isso explique sua mania de se vitimizar perante qualquer situação adversa: a criança que implora, chorando, o carinho do pai.
Sarney quer mamar. É sério, quer mesmo. Quer a mãe. Percebi isso ao encontrar seu poema mais lírico: A Vaca e o Infinito. A Vaca e o Infinito. Bonito isso. Mame comigo:
As estrelas são vacas
que vagam e se perdem
nas enseadas da noite
(...)
Encanto ou morte,
deixaram-me.
Na Fazenda Maguari
desde aquelas chuvas
as vacas e as Três Marias
berram na Vi Láctea
e nos currais.
Como, meu Deus? Como? Como pode este senhor ser o que é, ter o que tem, poder o que pode? O senhor me respondeu, por meio das palavras sagradas de padim Sarney:
Mistérios dos céus eternos
que ninguém pode explicar.
A sorte da morte e a vida,
o vir, o ser, o deixar.
Numa estrofe inspirada, o vate finalmente se apresenta com sinceridade:
Eu barro do Maranhão
Sem dúvida. Finalmente concordamos.
Fechei o livro. Nem precisei abrir o segundo: já posso falar mal de José Sarney.
Hoje à tarde, entrei num desses sebos. "José Sarney?", perguntei à atendente. A mulher, percebendo minhas intenções, gargalhou. Estão ali, ela disse, apontando a prateleira mais infame de qualquer sebo: a dos livros que voltaram à venda ainda inviolados, aqueles que ninguém quis, que falharam em cumprir sua missão no mundo, que de tão encalhados e ordinários são oferecidos ao preço de guaraná Jesus.
Nenhum autor, por pior que seja, merece esse destino. Nem mesmo José Sarney. Resolvi então fazer a boa ação do dia - resgatar dois livros de Sarney daquele cemitério das letras, onde até um imortal sofre sua pena eterna às traças, como se fosse um filho qualquer do Maranhão. Havia três títulos: um de poemas, outro de contos e o último de crônicas. Apanhei o de poemas (Os Maribondos de Fogo) e o de contos (Norte das Águas). O de crônicas eu deixei para trás: sou caridoso, mas nem tanto. Talvez compadecido, o caixa me deu um desconto. Morri em 15 reais. Escondi os livros numa sacola e saí de fininho do sebo.
Corri ao hotel, ansioso em descobrir logo o borogodó literário de Sarney. Respirei fundo, perseguinei-me e pedi desculpas ao Borges, cuja antologia pessoal me fazia companhia até então. Decidi começar pelo livro de poemas. Maribondos de Fogo. Que imagem poderosa, pensei. Perdi-me nessa metáfora. Suspeito que o maribondo esconda algum desejo reprimido, envolvendo ferrões e a figura masculina ardendo em fogo. Hum. Talvez represente a ausência do pai. Ou talvez ele tenha se confundido com um vaga-lume.
Reforço minhas suspeitas quando leio que os maribondos de fogo "sangram, picam e devoram". Eis aí uma influência clara de Rimbaud, o gêmeo francês do maribondo brasileiro. Kid Sarney parece mesmo estar à procura do pai, olhando o mundo como criança. Repare na inocência destes versos:
Os bois rodavam,
a moenda gemia
e meus olhos não sabiam.
As reminiscências da infância prosseguem mais adiante. O estilo é áspero, sofisticado:
Eu lembro
as coisas da terra,
as capineiras,
as folhagens,
a mamorana,
o andrequicé,
as encostas de cana-roxa
e as vassouras de botão.
Constrangido, passei a virar as páginas em desespero, buscando algo de algum valor estético, uma rima surpreendente, uma símile, qualquer coisa. Nada. Continuei me deparando com a figura do pai:
O bicho do homem nasce
se cria para morrer.
Trabalha sem descansar
atrás do que vai comer,
arruma mulher e cria
no canto duma morada:
dois corpos numa só vida
e neles unindo o homem
outros homens vão gerar.
Outros homens vão gerar. José Sarney de fato tem predileção por ferrões e varões, parece perseguir a segurança masculina. Talvez isso explique sua mania de se vitimizar perante qualquer situação adversa: a criança que implora, chorando, o carinho do pai.
Sarney quer mamar. É sério, quer mesmo. Quer a mãe. Percebi isso ao encontrar seu poema mais lírico: A Vaca e o Infinito. A Vaca e o Infinito. Bonito isso. Mame comigo:
As estrelas são vacas
que vagam e se perdem
nas enseadas da noite
(...)
Encanto ou morte,
deixaram-me.
Na Fazenda Maguari
desde aquelas chuvas
as vacas e as Três Marias
berram na Vi Láctea
e nos currais.
Como, meu Deus? Como? Como pode este senhor ser o que é, ter o que tem, poder o que pode? O senhor me respondeu, por meio das palavras sagradas de padim Sarney:
Mistérios dos céus eternos
que ninguém pode explicar.
A sorte da morte e a vida,
o vir, o ser, o deixar.
Numa estrofe inspirada, o vate finalmente se apresenta com sinceridade:
Eu barro do Maranhão
Sem dúvida. Finalmente concordamos.
Fechei o livro. Nem precisei abrir o segundo: já posso falar mal de José Sarney.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Morena infinita
As nuvens brancas dos céus da Bahia me levaram às lembranças dela, memórias constituídas de fatos e alucinações, descargas de luz desprovidas de matéria ou ordem, ricocheteando sem tréguas na minha alma. Digo a mim mesmo Ela é irmã dessas nuvens, sua ternura sempre imóvel e intangível, movendo-se intocada pelas alturas dos meus sonhos, onde meus desejos a observam, ansiosos como crianças à espera da mãe. Anulo meus conflitos na sua tranquilidade; descubro-me incapaz de divisar seu rosto, vejo somente pontos brancos espalhados pelo azul escuro do crepúsculo, agora ela já se assemelha a uma estrela, e brilha mais, tento senti-la, mas ela desliza pelos meus dedos, como se fôssemos feitos de matérias distintas, como se vivêssemos em dimensões ou tempos inconciliáveis. Não é ela quem amo, eu penso, amo a sua impossibilidade, amo a ternura que eu nunca terei. É fácil amar quem nunca irá te abandonar, ela diz, sem me olhar. Penso então que mesmo as nuvens têm fim, elas se partem em gotas e seguem sozinhas rumo à morte na terra.
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