domingo, 13 de setembro de 2009

União

Se não estiver lá desde o começo, desde aquele instante infinito no qual uma alma invade furtivamente a outra, sem dar chance às lentas defesas da consciência, uma alma misturando-se à outra na comunhão imperceptível da vida, se já não estiver lá cintilando e explodindo e confundindo seu brilho com o brilho das primeiras ilusões, as únicas ilusões que significam mais do que a verdade, tudo o mais que se seguir nunca será real - será uma imitação; ainda que verdadeira e prazerosa, será tão-somente isso: uma imitação.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Saudades

Quando senti que seu calor se aproximava do meu e que ela oferecia silenciosamente suas mãos aos meus ombros, eu soube que aquele momento trespassava minha alma, e que logo se tornaria uma lembrança, e eu desejei com todas as minhas forças ter a sorte de que os anos não levem embora esse instante de ternura, e que ele me faça companhia até o fim do que pode acabar.

As luzes de Nova York

Ele saltou ligeiro do vagão, sem saber onde descera nem qual saída tomaria. Caminhava depressa no vazio dos túneis subterrâneos, talvez na esperança de que seus passos acompanhassem seus pensamentos. Finalmente subiu, saltando as escadas estreitas num estranho compasso pendular, estabelecido pela livre interpretação das notas que Coltrane lhe gritava ao máximo volume. A cidade assomou à sua frente, e com ela o bloco de calor cinza que o verão depositava naquelas ruas. Surgiram pessoas. Nas ruas de Nova York, as pessoas não eram pessoas; eram obstáculos móveis entre um ponto e outro dos caminhos que constituíam o tempo de uma cidade em eterna fuga de si mesma. Não havia dúvida: era ali o melhor lugar do mundo para se perder sem saber disso. Ele divisou as luzes de Nova York à sua volta, quarteirões elevando-se em raios verdes, azuis, amarelos, vermelhos, roxos, brancos, laranjas, e mais algumas cores com certeza, um corredor polonês de letreiros em neon ou algo do tipo. Foi então que ele avistou a luz vermelha para pedestres e decidiu que chegara a hora de parar. Ele desligou o iPod, retirou lentamente os fones do ouvido e olhou para frente, concentrando-se na espera da luz branca que eventualmente apareceria, ela sempre aparecia, indicando a permissão para seguir caminho.

La vérité et le temps

N'importe quel temps, personne a trouvé la certitude sur la vérité de ce qui est vrai - sans illusions transcendentaux, bien sûr. Ce n'est pas acceptable de donner une réponse limpide et incontournable. Cette question s'agit de deux concepts sur lesquels il n'y a pas de consensus. Les têtes plus privilégiées de la pensée occidentale ont consacré leur temps à la recherche de ce type de vérité. Et, après tout ça, nous sommes maintenant ici: sans vérité et sans temps.

Je ne crois pas à la notion de vérité, c'est-à-dire, de la possibilité d'apreendre ce que nous appelons réel. Pour nous, une chose ou un concept est vrai lorsque nous le réputons comme réel, quand nous nos certifions de son existence. Cette idée est admissible dans les cas des choses empiriquement demontrées, expérience fait dans un point certain du temps, avec les règles de la méthode scientifique. Mais ce cas sont rares et font référence aux choses plus tangibles du monde: la physique, la chimie, la biologie.

Le problème de cette pensée se déroule dans les verités ontologiques, les verités impalpables de l'être. C'est un univers vaste et complexe. Il y a sur ce monde chaotique, sans règles intelligibles, les sentiments, comme l'amour et l'haine, les désirs, les illusions, la creativité, l'imagination, la poésie, la religion - tout ça que nous constituent humains. Ces sont les vérités que nous attachons. Dans ce monde, la vérité est une illusion, et l'illusion est la vérité.

"Le désir", a écrit Shakespeare, "est le père de la pensée." Freud a crée sa théorie sur le fonctionnement de la psyché, la psychanalyse, en vue de la notion dont les désirs, nos vérités, sont gouvernées par l'inconscient, dans un lieu presque inapprochable pour la conscience. L'impulse de l'être pour expliquer lui-même et les choses du monde est paru sur la necessité de trouver signifié sans la reconaissance de l'inconscient, de nos désirs le plus profonds et, pour quelques-uns, immoraux. L'invention de la transcendance, de la religion, des dieus, de la morale se sont passé à cause de cette répression élémentaire: illusions prises comme vérités.

Je connais seulement une vérité, la seule verité vivante de nous tous: la certitude de la mort. Et le guardien implacable de cette vérité est le temps. La mort ne se soumet à rien.

sábado, 8 de agosto de 2009

Pontapé no cinismo

Gostei do texto. Não sei quem é o autor. Quem será?

Confira:

"Eis que, pouco depois de completar 185 anos de vida, o Senado está agonizando dolorosamente, ao vivo e em cores, sob a apatia de nossos olhos resignados. O triste espetáculo que vimos nos últimos dias configura-se no prenúncio de dias ainda mais tenebrosos, que certamente se sucederão até que um pontapé no oligarca José Sarney se torne inevitável.

O Senado, assim como qualquer instituição, mede-se pelo tamanho dos homens que lá estão. São homens que fizeram o Senado ser o que sempre foi - uma Casa de exímios oradores e qualificados debates, que norteava a discussão dos caminhos a serem trilhados pelo país.

Hoje, são homens, pequenos homens, homens de baixos princípios e qualificações, que fazem o Senado ser o que é: uma instituição falida e corrupta, que custa 2 bilhões de reais aos nossos bolsos e não contribui em nada para amenizar os problemas arcaicos que ainda persistem no país.

Ganha um cargo comissionado no gabinete de Sarney quem se lembrar de algum projeto de relevância aprovado recentemente pelo Senado. Ou de algum debate profundo acerca de... bem, de qualquer coisa. Não há, nas palavras vazias e pobres que ecoam dos homens que se revezam a todo momento na tribuna do Senado, qualquer réstia de preocupação com os destinos de todos nós.

Educação? Violência? Saúde? Esqueça. Sobrou somente a pequena política, a politicagem dos interesses comezinhos e endinheirados, interesses personificados em figuras como José Sarney, Fernando Collor, Renan Calheiros, Romero Jucá - políticos cujos currículos brilham pelo acúmulo de malfeitorias e pelo vazio de ideias. Seus nomes entrarão na história pela porta dos fundos.

Mas há outros homens no Senado. Eles somam 81. Há os poucos que ousam se insurgir contra a turma da pistolagem, como os senadores Cristovam Buarque e Pedro Simon, mas que o fazem com tal tibieza que suas palavras lhe escapam pálidas e frágeis - e eles se apequenam junto com elas, do alto da tribuna de onde falam, falam e falam... Falam como se estivessem pedindo desculpas por sugerir o afastamento do chefe.

Mesmo o senador Arthur Virgílio, que tem se esforçado para liderar uma solitária reação dos bons costumes, mostra-se um homem de traços gentis, de excessiva lhaneza, assim que fica à frente de Sarney e seus camaradas. Sua paga veio pelas mordidas dos cães que protegem a casa grande.

Há, por fim, a maioria, os que dormem nas sombras do poder, os que são mais discretos em sua mediocridade, aqueles que assistem em silêncio à fogueira na qual arde o Senado. Onde estão as vozes de homens como Marco Maciel e Jarbas Vasconcelos, políticos experientes e ciosos da grandeza institucional do Congresso na nossa democracia? O que fazem no momento em que mais precisamos deles? Por que não os vemos apartar nenhum desses senhores no plenário, dizendo-lhes o que tantos de nós queremos dizer? Que razões comezinhas poderão nos apresentar no futuro, como justificativa para tamanha covardia? O que dirão aos seus filhos e eleitores petistas como Aloízio Mercadante e Eduardo Suplicy?

E no entanto somos, todos nós - senadores ou deputados, homens de governo ou de oposição, empresários ou trabalhores, eleitores ou eleitos - um só povo, unidos por nossa herança comum, definidos por nossas virtudes e, sobretudo, por nossos defeitos. Podemos fracassar como indivíduos - mas nunca como nação. O fracasso de José Sarney como político não pode representar a derrota do Senado como instituição. O Senado é maior do que José Sarney.

É maior porque pertence a todos nós, porque deve servir a nós - e não a eles, os piratas do Congresso.

Chegará o dia em que Sarney, Renan, Collor e as demais figuras de má qualidade que ali estão, assim como nós, com todas nossas virtudes e nossos defeitos, não estarão mais aqui. Mas nossos filhos estarão. Ou nossos netos. Se não por nós, é por eles que devemos salvar o Senado. É aos interesses deles que o Senado servirá amanhã. Isso só acontecerá se nós, como povo, neste momento crítico de nossa história, tivermos a força para nos levantarmos contra os oligarcas que tomaram o Senado de assalto.

Protestos virtuais não são suficientes. Senadores não têm medo de Twitter, blogues ou passeatas na internet: senadores têm medo de povo nas ruas. Por isso, o único modo de conseguirmos que eles ouçam nossos vozes, escutem nossas exigências e finalmente cedam aos nossos propósitos é por meio de um grito que alcance seus ouvidos - um grito forte e inequívoco, que parta em uníssono dos gramados da Esplanada dos Ministérios e rompa as vidraças do Congresso.

Até que isso aconteça, não nos iludamos, nada vai mudar. Nada.

É chegada a hora, portanto, de pararmos com os resmungos preguiçosos e os muxoxos confortáveis, essas reclamações cínicas que nos dão a estranha sensação de dever cumprido e, nós sabemos, não resolvem nada. Não: é hora de agir. Ou então calar de vez.

Pois este é o nosso tempo, este é o nosso mundo - e retomar o Senado é o desafio que se impõe agora a todos nós."

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Conexões perdidas

Aeroportos são lugares solitários, ele pensava, enquanto seus olhos percorriam preguiçosamente o lento ir-e-vir dos passageiros na sala de embarque, uns para lá, outros para cá, andorinhas flanando de asas abertas, ansiosas em seguir viagem rumo ao mistério de suas vidas. Não se detinha em ninguém em particular; seus olhos contentavam-se em acompanhar os gestos e barulhos que constituíam aquele momento. Aeroportos são como o limbo do mundo moderno, sim, talvez seja isso, almas no suspense do porvir, em trânsito para o quê, para quê, aqui não há ninguém, ninguém está aqui, é aqui que se concentra toda a expectativa de que algo aconteça - não agora, mas daqui a pouco. Quando eu chegar. Quando eu voltar. Quando eu partir.

domingo, 2 de agosto de 2009

Nelson

Recém-chegado do mato, ainda sonolento e cansado, limito-me a deixar aqui quem melhor fala com as mãos, numa arenga que ressoa com força no espírito de domingo: