As estrelas permaneceram imóveis no torpor da noite, e tudo porque ele percebeu que o abandono é o mais perto que se pode chegar da morte sem tocá-la.
Enquanto ela se afastava na escuridão úmida de São Paulo, ele contemplava a própria finitude no encontro com a ausência dela, na impossibilidade da real união entre duas almas, na impossibilidade de converter luz em matéria, espaço em tempo, raiva em amor; na impossibilidade do infinito.
Ele queria alcançar o silêncio dela, e dizer Aproxime seu desejo do meu, acaricie sua dor na minha, vamos misturar nossas ilusões, antes que o passado roube o que é só nosso, antes que o gosto da sua boca dilua-se na escuridão, antes que essas sensações dobrem-se ao porvir, e a verdade da vida perca-se na memória de nossos breves dias.
Então ele quis pedir novamente Entregue seu medo ao meu, sim, eu cuidarei dele, sem tentar amansá-lo com doces mentiras, ele estará conosco sempre que nossos sorrisos participarem um do outro.
E tudo porque o abandono trouxe o frio da morte antes que o tempo permitisse, e o caos da vida foi incapaz de expulsar o vazio, o vazio das estrelas imóveis na noite em que ela partiu.
domingo, 9 de maio de 2010
sábado, 8 de maio de 2010
About Solitude
"It is very easy in the world to live by the opinion of the world. It is very easy in solitude to be self-centered. But the finished man is he who in the midst of the crowd keeps with perfect sweetness the independence of solitude."
Ralph Waldo Emerson
Ralph Waldo Emerson
A Miséria das Palavras
O que fazer quando a caneta recusa-se a tocar o papel? O que resta quando as palavras certas estão secas de significado, e o significado escapa do que é real, refugiando-se nas sensações ilusórias de conforto e ternura? Como extrair a minha verdade do mundo quando a incerteza torna tola qualquer busca por controle? O que fazer, portanto, quando o coração ignora o absurdo e delega todo sentido à vida do espírito e aos domínios incontestáveis da mente? O que fazer, senão escrever?
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Trégua
Quase dois meses sem escrever por aqui. Azar o meu; sorte da literatura.
Mas meu espírito voltou aos eixos. Hora de teclar.
Mas meu espírito voltou aos eixos. Hora de teclar.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Memories of the Future
“I live in such a distant future that my future seems to me past, spent and turned to dust."
Sigizmund Krzhizhanovsky
Sigizmund Krzhizhanovsky
terça-feira, 13 de outubro de 2009
O canto das cigarras
Foi numa manhã fresca de domingo que descobri as lembranças de uma infância feliz. Setembro chegara devagar, os tempos de seca iam-se embora, as primeiras nuvens da primavera acomodavam-se gentilmente no céu monocromático de Brasília. O sol estava cansado e perdia gradativamente suas cores, do mesmo modo que um lutador perde suas forças: um novo dia, um novo assalto. Era uma manhã feita para as pessoas, não para as coisas do mundo.
Brasília oferece muitas manhãs assim, manhãs que convidam as crianças a gastar suas energias nos gramados da cidade, os malhadores a suar no parque, os velhinhos a passear pelas quadras - e os demais a ver de perto tudo isso. Saí para tomar café-da-manhã numa padaria perto de casa: eu, os jornais e o dia. No caminho, passei por mangueiras e amoreiras que balançavam lentamente ao sabor do vento, aquele vento preguiçoso que antecede as chuvas da primavera, o movimento das folhas marcando o passo dos corredores na calçada e do meu ritmo no gramado verde-claro.
Sentei-me numa mesinha próxima ao verde da grama e das árvores, pedi um café com leite e, antes de abrir os jornais, parei para olhar o dia. Reparei então que as cigarras começavam a cantar, um coro desordenado de insetos e decibéis pedindo com estridência, em tons cada vez mais agudos, o amor da primavera. Em Brasília, é um ritual que se repete anualmente com a perfeita simetria das estações. Pensei nas cigarras. Elas vivem como larvas durante anos e anos, debaixo da terra, alimentando-se da seiva que escorre pelas raízes das árvores, até estarem prontas para subir à luz. Esse longo e doloroso prelúdio culmina numa intensa vida de duas semanas, nas quais as cigarras-macho cantam desesperadamente, gritam sem parar canções descomunais, sons poderosos que não cabem em seus pequeninos corpos, esforçam-se até a exaustão, tudo na tentativa de seduzir as cigarras-fêmeas. A cantoria só cessa quando elas conseguem acasalar - ou quando morrem tentando. Depois que procriam, é o fim. Cigarras são insetos limitados. Não sabem afastar predadores. Não vivem o suficiente nem mesmo para aprender a bater corretamente suas asas: cigarras vivem apenas para o ato do amor.
Um sujeito cínico, esse típico homem dos nossos dias, tão frívolo em sua seriedade pusilânime, diria que as cigarras vivem apenas para nos atazanar, elas e seus gritinhos histéricos. Talvez. Mas não naquela manhã de domingo. Naquela manhã de domingo eu finalmente consegui ouvir o que elas cantavam. Afastei meus outros sentidos, concentrando-me em buscar o significado dos sons zimmmmmmmmm até me acostumar com aquele timbre contínuo e suplicante de zimmmmmmmmmmm até que o zimmmmmmmmm se aproximasse de mim zimmmmmmm e o zimmmmmmm estivesse dentro, e não mais fora, e deixei sem medo que o zimmmmmmm me levasse ao que eu desconhecia, sim, não há mais controle, e ouvindo zimmmmmm voltei aos breus da memória que não existia, da infância perdida ou inventada, da infância sem o abandono e a dor, da criança que ouvia o zimmmmmm nas manhãs distantes de setembro e pressentia que havia na natureza o amor que não havia nas pessoas, e que o mundo poderia fazer sentido desde que o zimmmmmmm estivesse lá, naqueles poucos dias, fazendo-lhe companhia, sempre igual, sim, sempre do mesmo jeito, o zimmmmmm era a certeza que expulsaria o vazio, e ouvindo o zimmmmm nas manhãs perdidas de um tempo fora do tempo tudo daria certo, sim, eu sinto isso de novo, o zimmmmmm não é apenas um barulho nem uma epifania vulgar, as coisas não são como são, está ali o coração da poesia e do devir, ali pulsa o futuro da vida e da morte, e não o futuro dos homens, onde há morte e tudo que a antecede, mas o futuro como certeza de estar-no-mundo para sempre, zimmmmmm, estar como antes, como agora e como depois, estar plenamente, sem o vazio, na vida do que é infinito.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Tempos excessivos
Na ausência da força de espírito para escrever, registro aqui as belas palavras de Fernando Pessoa, sopros poéticos de minhas páginas ainda em branco, à espera da sublevação do inconsciente:
"Sopra demais o vento
Para eu poder descansar...
Há no meu pensamento
Qualquer cousa que vai parar...
Talvez esta cousa da alma
Que acha real a vida...
Talvez esta cousa calma
Que me faz a alma vivida...
Sopra um vento excessivo...
Tenho medo de pensar...
O meu mistério eu avivo
Se me perco a meditar.
Vento que passa e esquece,
Poeira que se ergue e cai...
Ai de mim se eu pudesse
Saber o que em mim vai."
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Your sweet semblance
"O that you were yourself, but love you are
No longer yours than you yourself here live.
Against this coming end you should prepare,
And your sweet semblance to some other give.
So should that beauty which you hold in lease
Find no determination - then you were
Yourself again after your self's decease,
When your sweet issue your sweet form should bear.
Who lets so fair a house fall to decay,
Which husbandry in honour might uphold
Against the stormy gusts of winter's day
And barren rage of death's eternal cold?
O none but unthrifts, dear my love you know,
You had a father, let your son say so."
Shakespeare's sonnets.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
O extermínio da memória
Aos primeiros raios de sol do Natal de 1973, um grupo de elite do Exército brasileiro adentrou a densa selva da região de Marabá, no sul do Pará, à caça dos comandantes do movimento armado que ficou conhecido como a Guerrilha do Araguaia, numa alusão ao rio de águas escuras que por ali corre. Os militares que integravam essa equipe de ataque pertenciam aos quadros do Centro de Inteligência do Exército, o temido CIE. Eles haviam se submetido a um rigoroso programa de combate na selva, estavam equipados com fuzis Fal e Parafal, armas capazes de estraçalhar carne humana, e vestiam trajes civis, como calças jeans e camisas, num sinal de que aquela era uma missão clandestina. Todos sabiam por que estavam lá. Estavam lá com ordens expressas de assassinar outros brasileiros, eliminando com eles quaisquer vestígios de existência da guerrilha.
Não poderia haver prisioneiros, e prisioneiros não houve. Aqueles militares sabiam que encontrariam, mais cedo ou mais tarde, somente um punhado de guerrilheiros famélicos e mal equipados, cuja esperança, àquele momento, resumia-se a sobreviver. Os guerrilheros provavelmente também sabiam o que iria acontecer, quando esse confronto sobreviesse. Quando os militares finalmente avistaram os guerrilheiros no final daquela manhã de Natal, não houve surpresas. A guerrilha estava liquidada. Cinco dos 16 guerrilheiros morreram ali mesmo – inclusive o principal líder dos comunistas, Maurício Grabois, oVelho Mário. Os outros 11 fugiram pela selva, cada um seguindo seu caminho. Todas as trilhas, entretanto, levaram ao mesmo destino.
Nos meses seguintes a essa ofensiva, conhecida como Chafurdo de Natal, que desmontou o que restara da guerrilha, os remanescentes foram capturados, torturados e executados. Um a um. Sem clemência. Os números mais confiáveis demonstram que os militares mataram 41 guerrilheiros, quase sempre depois de sugar-lhes informação e sangue. Do lado do Exército, não há relatos de baixas. Só há uma palavra para definir o que se passou na selva, no decorrer daqueles dias lúgubres: massacre. Cabeças de guerrilheiros foram decepadas e seus corpos, abandonados insepultos na mata, serviram de refeição para onças e porcos selvagens. Os depoimentos dos militares envolvidos no extermínio indicam que o que sobrara dos guerrilheiros foi enterrado em locais ermos da selva. Meses depois de encerrado o conflito, os restos mortais dos guerrilheiros foram queimados em fogueiras humanas preparadas pelo Exército, numa missão conhecida na caserna como “operação limpeza”.
Transcorridos 35 anos, a eliminação dos guerriheiros do Araguaia permanece como o episódio mais traumático e violento da ditadura. A memória daqueles dias sangrentos ainda assombra o país. O Exército e as autoridades civis não esclareceram até hoje o que se passou entre o fim de 1973 e o começo de 1974, quando os guerrilheiros foram exterminados. Explicações nunca foram concedidas. Corpos nunca foram achados. E os responsáveis nunca foram processados. Vítimas colaterais de uma chacina que não poderia ter existido, mas existiu, os familiares dos guerrilheiros foram abandonados ao limbo de suas lembranças.
As buscas que ora se iniciam constituem a última chance de muitos dos familiares dos guerrilheiros em dar um enterro a quem perderam. Os ossos que porventura sejam encontrados também representam, para esses parentes em eterna vigília, a possibilidade de conhecer um pouco do que se passou na selva. Triste do país que depende disso, de vestígios de ossos enterrados numa selva distante, para conhecer seu passado e sua verdade – quando ambos deveriam aparecer em documentos oficiais e em pedidos de desculpa dos responsáveis, muitos dos quais ainda vivem. É este o Brasil de 2009. Escreveu o escritor americano William Faulkner, em busca dos significados da memória: “O passado nunca está morto. Nem ao menos é passado”. O Brasil que ficou no Araguaia nunca morrerá, mas merece ser enterrado com dignidade.
Não poderia haver prisioneiros, e prisioneiros não houve. Aqueles militares sabiam que encontrariam, mais cedo ou mais tarde, somente um punhado de guerrilheiros famélicos e mal equipados, cuja esperança, àquele momento, resumia-se a sobreviver. Os guerrilheros provavelmente também sabiam o que iria acontecer, quando esse confronto sobreviesse. Quando os militares finalmente avistaram os guerrilheiros no final daquela manhã de Natal, não houve surpresas. A guerrilha estava liquidada. Cinco dos 16 guerrilheiros morreram ali mesmo – inclusive o principal líder dos comunistas, Maurício Grabois, oVelho Mário. Os outros 11 fugiram pela selva, cada um seguindo seu caminho. Todas as trilhas, entretanto, levaram ao mesmo destino.
Nos meses seguintes a essa ofensiva, conhecida como Chafurdo de Natal, que desmontou o que restara da guerrilha, os remanescentes foram capturados, torturados e executados. Um a um. Sem clemência. Os números mais confiáveis demonstram que os militares mataram 41 guerrilheiros, quase sempre depois de sugar-lhes informação e sangue. Do lado do Exército, não há relatos de baixas. Só há uma palavra para definir o que se passou na selva, no decorrer daqueles dias lúgubres: massacre. Cabeças de guerrilheiros foram decepadas e seus corpos, abandonados insepultos na mata, serviram de refeição para onças e porcos selvagens. Os depoimentos dos militares envolvidos no extermínio indicam que o que sobrara dos guerrilheiros foi enterrado em locais ermos da selva. Meses depois de encerrado o conflito, os restos mortais dos guerrilheiros foram queimados em fogueiras humanas preparadas pelo Exército, numa missão conhecida na caserna como “operação limpeza”.
Transcorridos 35 anos, a eliminação dos guerriheiros do Araguaia permanece como o episódio mais traumático e violento da ditadura. A memória daqueles dias sangrentos ainda assombra o país. O Exército e as autoridades civis não esclareceram até hoje o que se passou entre o fim de 1973 e o começo de 1974, quando os guerrilheiros foram exterminados. Explicações nunca foram concedidas. Corpos nunca foram achados. E os responsáveis nunca foram processados. Vítimas colaterais de uma chacina que não poderia ter existido, mas existiu, os familiares dos guerrilheiros foram abandonados ao limbo de suas lembranças.
As buscas que ora se iniciam constituem a última chance de muitos dos familiares dos guerrilheiros em dar um enterro a quem perderam. Os ossos que porventura sejam encontrados também representam, para esses parentes em eterna vigília, a possibilidade de conhecer um pouco do que se passou na selva. Triste do país que depende disso, de vestígios de ossos enterrados numa selva distante, para conhecer seu passado e sua verdade – quando ambos deveriam aparecer em documentos oficiais e em pedidos de desculpa dos responsáveis, muitos dos quais ainda vivem. É este o Brasil de 2009. Escreveu o escritor americano William Faulkner, em busca dos significados da memória: “O passado nunca está morto. Nem ao menos é passado”. O Brasil que ficou no Araguaia nunca morrerá, mas merece ser enterrado com dignidade.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Pôr-do-sol
Ergui-me da cadeira com preguiça, permitindo que alguma força desconhecida me conduzisse à janela. O sol abandonava lentamente o horizonte, levando embora as cores do céu e os rancores do dia. Eu apenas olhava. Absorvi imóvel as primeiras sombras da noite, na esperança de que suas ilusões trouxessem sentido às dores sem fim. Tive a sólida sensação de que aqueles instantes prolongariam-se por horas. Percebi, um tanto confuso, que o espírito da noite na verdade redobrava a força do que eu convencionara em chamar de ataques de consciência. Não havia mais como lutar.
Foi então que divisei algo, algo que bordejava as sombras do horizonte, algo disforme, adaptando-se furtivamente ao verde da floresta, ora aparecendo como um círculo, ora como um retângulo, algo sem cor e sem alma, movendo-se como espuma ou vento, talvez como fumaça ou ainda como uma névoa espessa, uma solução gasosa que ganhava velocidade ao atravessar os caules e as folhas e as gramas que nos separavam, devorando tudo como uma praga bíblica. Fechei os olhos e abri a janela. Senti aquela fumaça virar massa dentro dos meus ossos, congelando-os com fúria, aquela massa enegrecida pelos restos que colheu no caminho, indiferente à dor e ao desespero, ao amor e à vida, eu era apenas mais um objeto, disforme também, e soube assim que ela estava concentrada tão-somente em trilhar seu caminho de destruição.
Foi então que divisei algo, algo que bordejava as sombras do horizonte, algo disforme, adaptando-se furtivamente ao verde da floresta, ora aparecendo como um círculo, ora como um retângulo, algo sem cor e sem alma, movendo-se como espuma ou vento, talvez como fumaça ou ainda como uma névoa espessa, uma solução gasosa que ganhava velocidade ao atravessar os caules e as folhas e as gramas que nos separavam, devorando tudo como uma praga bíblica. Fechei os olhos e abri a janela. Senti aquela fumaça virar massa dentro dos meus ossos, congelando-os com fúria, aquela massa enegrecida pelos restos que colheu no caminho, indiferente à dor e ao desespero, ao amor e à vida, eu era apenas mais um objeto, disforme também, e soube assim que ela estava concentrada tão-somente em trilhar seu caminho de destruição.
domingo, 13 de setembro de 2009
Do poder
"Qu'importe, n'est-ce pas, d'humilier son esprit si l'on arrive par là à dominer tout le monde?"
Camus, La Chute
União
Se não estiver lá desde o começo, desde aquele instante infinito no qual uma alma invade furtivamente a outra, sem dar chance às lentas defesas da consciência, uma alma misturando-se à outra na comunhão imperceptível da vida, se já não estiver lá cintilando e explodindo e confundindo seu brilho com o brilho das primeiras ilusões, as únicas ilusões que significam mais do que a verdade, tudo o mais que se seguir nunca será real - será uma imitação; ainda que verdadeira e prazerosa, será tão-somente isso: uma imitação.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Saudades
Quando senti que seu calor se aproximava do meu e que ela oferecia silenciosamente suas mãos aos meus ombros, eu soube que aquele momento trespassava minha alma, e que logo se tornaria uma lembrança, e eu desejei com todas as minhas forças ter a sorte de que os anos não levem embora esse instante de ternura, e que ele me faça companhia até o fim do que pode acabar.
As luzes de Nova York
Ele saltou ligeiro do vagão, sem saber onde descera nem qual saída tomaria. Caminhava depressa no vazio dos túneis subterrâneos, talvez na esperança de que seus passos acompanhassem seus pensamentos. Finalmente subiu, saltando as escadas estreitas num estranho compasso pendular, estabelecido pela livre interpretação das notas que Coltrane lhe gritava ao máximo volume. A cidade assomou à sua frente, e com ela o bloco de calor cinza que o verão depositava naquelas ruas. Surgiram pessoas. Nas ruas de Nova York, as pessoas não eram pessoas; eram obstáculos móveis entre um ponto e outro dos caminhos que constituíam o tempo de uma cidade em eterna fuga de si mesma. Não havia dúvida: era ali o melhor lugar do mundo para se perder sem saber disso. Ele divisou as luzes de Nova York à sua volta, quarteirões elevando-se em raios verdes, azuis, amarelos, vermelhos, roxos, brancos, laranjas, e mais algumas cores com certeza, um corredor polonês de letreiros em neon ou algo do tipo. Foi então que ele avistou a luz vermelha para pedestres e decidiu que chegara a hora de parar. Ele desligou o iPod, retirou lentamente os fones do ouvido e olhou para frente, concentrando-se na espera da luz branca que eventualmente apareceria, ela sempre aparecia, indicando a permissão para seguir caminho.
La vérité et le temps
N'importe quel temps, personne a trouvé la certitude sur la vérité de ce qui est vrai - sans illusions transcendentaux, bien sûr. Ce n'est pas acceptable de donner une réponse limpide et incontournable. Cette question s'agit de deux concepts sur lesquels il n'y a pas de consensus. Les têtes plus privilégiées de la pensée occidentale ont consacré leur temps à la recherche de ce type de vérité. Et, après tout ça, nous sommes maintenant ici: sans vérité et sans temps.
Je ne crois pas à la notion de vérité, c'est-à-dire, de la possibilité d'apreendre ce que nous appelons réel. Pour nous, une chose ou un concept est vrai lorsque nous le réputons comme réel, quand nous nos certifions de son existence. Cette idée est admissible dans les cas des choses empiriquement demontrées, expérience fait dans un point certain du temps, avec les règles de la méthode scientifique. Mais ce cas sont rares et font référence aux choses plus tangibles du monde: la physique, la chimie, la biologie.
Le problème de cette pensée se déroule dans les verités ontologiques, les verités impalpables de l'être. C'est un univers vaste et complexe. Il y a sur ce monde chaotique, sans règles intelligibles, les sentiments, comme l'amour et l'haine, les désirs, les illusions, la creativité, l'imagination, la poésie, la religion - tout ça que nous constituent humains. Ces sont les vérités que nous attachons. Dans ce monde, la vérité est une illusion, et l'illusion est la vérité.
"Le désir", a écrit Shakespeare, "est le père de la pensée." Freud a crée sa théorie sur le fonctionnement de la psyché, la psychanalyse, en vue de la notion dont les désirs, nos vérités, sont gouvernées par l'inconscient, dans un lieu presque inapprochable pour la conscience. L'impulse de l'être pour expliquer lui-même et les choses du monde est paru sur la necessité de trouver signifié sans la reconaissance de l'inconscient, de nos désirs le plus profonds et, pour quelques-uns, immoraux. L'invention de la transcendance, de la religion, des dieus, de la morale se sont passé à cause de cette répression élémentaire: illusions prises comme vérités.
Je connais seulement une vérité, la seule verité vivante de nous tous: la certitude de la mort. Et le guardien implacable de cette vérité est le temps. La mort ne se soumet à rien.
Je ne crois pas à la notion de vérité, c'est-à-dire, de la possibilité d'apreendre ce que nous appelons réel. Pour nous, une chose ou un concept est vrai lorsque nous le réputons comme réel, quand nous nos certifions de son existence. Cette idée est admissible dans les cas des choses empiriquement demontrées, expérience fait dans un point certain du temps, avec les règles de la méthode scientifique. Mais ce cas sont rares et font référence aux choses plus tangibles du monde: la physique, la chimie, la biologie.
Le problème de cette pensée se déroule dans les verités ontologiques, les verités impalpables de l'être. C'est un univers vaste et complexe. Il y a sur ce monde chaotique, sans règles intelligibles, les sentiments, comme l'amour et l'haine, les désirs, les illusions, la creativité, l'imagination, la poésie, la religion - tout ça que nous constituent humains. Ces sont les vérités que nous attachons. Dans ce monde, la vérité est une illusion, et l'illusion est la vérité.
"Le désir", a écrit Shakespeare, "est le père de la pensée." Freud a crée sa théorie sur le fonctionnement de la psyché, la psychanalyse, en vue de la notion dont les désirs, nos vérités, sont gouvernées par l'inconscient, dans un lieu presque inapprochable pour la conscience. L'impulse de l'être pour expliquer lui-même et les choses du monde est paru sur la necessité de trouver signifié sans la reconaissance de l'inconscient, de nos désirs le plus profonds et, pour quelques-uns, immoraux. L'invention de la transcendance, de la religion, des dieus, de la morale se sont passé à cause de cette répression élémentaire: illusions prises comme vérités.
Je connais seulement une vérité, la seule verité vivante de nous tous: la certitude de la mort. Et le guardien implacable de cette vérité est le temps. La mort ne se soumet à rien.
sábado, 8 de agosto de 2009
Pontapé no cinismo
Gostei do texto. Não sei quem é o autor. Quem será?
Confira:
"Eis que, pouco depois de completar 185 anos de vida, o Senado está agonizando dolorosamente, ao vivo e em cores, sob a apatia de nossos olhos resignados. O triste espetáculo que vimos nos últimos dias configura-se no prenúncio de dias ainda mais tenebrosos, que certamente se sucederão até que um pontapé no oligarca José Sarney se torne inevitável.
O Senado, assim como qualquer instituição, mede-se pelo tamanho dos homens que lá estão. São homens que fizeram o Senado ser o que sempre foi - uma Casa de exímios oradores e qualificados debates, que norteava a discussão dos caminhos a serem trilhados pelo país.
Hoje, são homens, pequenos homens, homens de baixos princípios e qualificações, que fazem o Senado ser o que é: uma instituição falida e corrupta, que custa 2 bilhões de reais aos nossos bolsos e não contribui em nada para amenizar os problemas arcaicos que ainda persistem no país.
Ganha um cargo comissionado no gabinete de Sarney quem se lembrar de algum projeto de relevância aprovado recentemente pelo Senado. Ou de algum debate profundo acerca de... bem, de qualquer coisa. Não há, nas palavras vazias e pobres que ecoam dos homens que se revezam a todo momento na tribuna do Senado, qualquer réstia de preocupação com os destinos de todos nós.
Educação? Violência? Saúde? Esqueça. Sobrou somente a pequena política, a politicagem dos interesses comezinhos e endinheirados, interesses personificados em figuras como José Sarney, Fernando Collor, Renan Calheiros, Romero Jucá - políticos cujos currículos brilham pelo acúmulo de malfeitorias e pelo vazio de ideias. Seus nomes entrarão na história pela porta dos fundos.
Mas há outros homens no Senado. Eles somam 81. Há os poucos que ousam se insurgir contra a turma da pistolagem, como os senadores Cristovam Buarque e Pedro Simon, mas que o fazem com tal tibieza que suas palavras lhe escapam pálidas e frágeis - e eles se apequenam junto com elas, do alto da tribuna de onde falam, falam e falam... Falam como se estivessem pedindo desculpas por sugerir o afastamento do chefe.
Mesmo o senador Arthur Virgílio, que tem se esforçado para liderar uma solitária reação dos bons costumes, mostra-se um homem de traços gentis, de excessiva lhaneza, assim que fica à frente de Sarney e seus camaradas. Sua paga veio pelas mordidas dos cães que protegem a casa grande.
Há, por fim, a maioria, os que dormem nas sombras do poder, os que são mais discretos em sua mediocridade, aqueles que assistem em silêncio à fogueira na qual arde o Senado. Onde estão as vozes de homens como Marco Maciel e Jarbas Vasconcelos, políticos experientes e ciosos da grandeza institucional do Congresso na nossa democracia? O que fazem no momento em que mais precisamos deles? Por que não os vemos apartar nenhum desses senhores no plenário, dizendo-lhes o que tantos de nós queremos dizer? Que razões comezinhas poderão nos apresentar no futuro, como justificativa para tamanha covardia? O que dirão aos seus filhos e eleitores petistas como Aloízio Mercadante e Eduardo Suplicy?
E no entanto somos, todos nós - senadores ou deputados, homens de governo ou de oposição, empresários ou trabalhores, eleitores ou eleitos - um só povo, unidos por nossa herança comum, definidos por nossas virtudes e, sobretudo, por nossos defeitos. Podemos fracassar como indivíduos - mas nunca como nação. O fracasso de José Sarney como político não pode representar a derrota do Senado como instituição. O Senado é maior do que José Sarney.
É maior porque pertence a todos nós, porque deve servir a nós - e não a eles, os piratas do Congresso.
Chegará o dia em que Sarney, Renan, Collor e as demais figuras de má qualidade que ali estão, assim como nós, com todas nossas virtudes e nossos defeitos, não estarão mais aqui. Mas nossos filhos estarão. Ou nossos netos. Se não por nós, é por eles que devemos salvar o Senado. É aos interesses deles que o Senado servirá amanhã. Isso só acontecerá se nós, como povo, neste momento crítico de nossa história, tivermos a força para nos levantarmos contra os oligarcas que tomaram o Senado de assalto.
Protestos virtuais não são suficientes. Senadores não têm medo de Twitter, blogues ou passeatas na internet: senadores têm medo de povo nas ruas. Por isso, o único modo de conseguirmos que eles ouçam nossos vozes, escutem nossas exigências e finalmente cedam aos nossos propósitos é por meio de um grito que alcance seus ouvidos - um grito forte e inequívoco, que parta em uníssono dos gramados da Esplanada dos Ministérios e rompa as vidraças do Congresso.
Até que isso aconteça, não nos iludamos, nada vai mudar. Nada.
É chegada a hora, portanto, de pararmos com os resmungos preguiçosos e os muxoxos confortáveis, essas reclamações cínicas que nos dão a estranha sensação de dever cumprido e, nós sabemos, não resolvem nada. Não: é hora de agir. Ou então calar de vez.
Pois este é o nosso tempo, este é o nosso mundo - e retomar o Senado é o desafio que se impõe agora a todos nós."
Confira:
"Eis que, pouco depois de completar 185 anos de vida, o Senado está agonizando dolorosamente, ao vivo e em cores, sob a apatia de nossos olhos resignados. O triste espetáculo que vimos nos últimos dias configura-se no prenúncio de dias ainda mais tenebrosos, que certamente se sucederão até que um pontapé no oligarca José Sarney se torne inevitável.
O Senado, assim como qualquer instituição, mede-se pelo tamanho dos homens que lá estão. São homens que fizeram o Senado ser o que sempre foi - uma Casa de exímios oradores e qualificados debates, que norteava a discussão dos caminhos a serem trilhados pelo país.
Hoje, são homens, pequenos homens, homens de baixos princípios e qualificações, que fazem o Senado ser o que é: uma instituição falida e corrupta, que custa 2 bilhões de reais aos nossos bolsos e não contribui em nada para amenizar os problemas arcaicos que ainda persistem no país.
Ganha um cargo comissionado no gabinete de Sarney quem se lembrar de algum projeto de relevância aprovado recentemente pelo Senado. Ou de algum debate profundo acerca de... bem, de qualquer coisa. Não há, nas palavras vazias e pobres que ecoam dos homens que se revezam a todo momento na tribuna do Senado, qualquer réstia de preocupação com os destinos de todos nós.
Educação? Violência? Saúde? Esqueça. Sobrou somente a pequena política, a politicagem dos interesses comezinhos e endinheirados, interesses personificados em figuras como José Sarney, Fernando Collor, Renan Calheiros, Romero Jucá - políticos cujos currículos brilham pelo acúmulo de malfeitorias e pelo vazio de ideias. Seus nomes entrarão na história pela porta dos fundos.
Mas há outros homens no Senado. Eles somam 81. Há os poucos que ousam se insurgir contra a turma da pistolagem, como os senadores Cristovam Buarque e Pedro Simon, mas que o fazem com tal tibieza que suas palavras lhe escapam pálidas e frágeis - e eles se apequenam junto com elas, do alto da tribuna de onde falam, falam e falam... Falam como se estivessem pedindo desculpas por sugerir o afastamento do chefe.
Mesmo o senador Arthur Virgílio, que tem se esforçado para liderar uma solitária reação dos bons costumes, mostra-se um homem de traços gentis, de excessiva lhaneza, assim que fica à frente de Sarney e seus camaradas. Sua paga veio pelas mordidas dos cães que protegem a casa grande.
Há, por fim, a maioria, os que dormem nas sombras do poder, os que são mais discretos em sua mediocridade, aqueles que assistem em silêncio à fogueira na qual arde o Senado. Onde estão as vozes de homens como Marco Maciel e Jarbas Vasconcelos, políticos experientes e ciosos da grandeza institucional do Congresso na nossa democracia? O que fazem no momento em que mais precisamos deles? Por que não os vemos apartar nenhum desses senhores no plenário, dizendo-lhes o que tantos de nós queremos dizer? Que razões comezinhas poderão nos apresentar no futuro, como justificativa para tamanha covardia? O que dirão aos seus filhos e eleitores petistas como Aloízio Mercadante e Eduardo Suplicy?
E no entanto somos, todos nós - senadores ou deputados, homens de governo ou de oposição, empresários ou trabalhores, eleitores ou eleitos - um só povo, unidos por nossa herança comum, definidos por nossas virtudes e, sobretudo, por nossos defeitos. Podemos fracassar como indivíduos - mas nunca como nação. O fracasso de José Sarney como político não pode representar a derrota do Senado como instituição. O Senado é maior do que José Sarney.
É maior porque pertence a todos nós, porque deve servir a nós - e não a eles, os piratas do Congresso.
Chegará o dia em que Sarney, Renan, Collor e as demais figuras de má qualidade que ali estão, assim como nós, com todas nossas virtudes e nossos defeitos, não estarão mais aqui. Mas nossos filhos estarão. Ou nossos netos. Se não por nós, é por eles que devemos salvar o Senado. É aos interesses deles que o Senado servirá amanhã. Isso só acontecerá se nós, como povo, neste momento crítico de nossa história, tivermos a força para nos levantarmos contra os oligarcas que tomaram o Senado de assalto.
Protestos virtuais não são suficientes. Senadores não têm medo de Twitter, blogues ou passeatas na internet: senadores têm medo de povo nas ruas. Por isso, o único modo de conseguirmos que eles ouçam nossos vozes, escutem nossas exigências e finalmente cedam aos nossos propósitos é por meio de um grito que alcance seus ouvidos - um grito forte e inequívoco, que parta em uníssono dos gramados da Esplanada dos Ministérios e rompa as vidraças do Congresso.
Até que isso aconteça, não nos iludamos, nada vai mudar. Nada.
É chegada a hora, portanto, de pararmos com os resmungos preguiçosos e os muxoxos confortáveis, essas reclamações cínicas que nos dão a estranha sensação de dever cumprido e, nós sabemos, não resolvem nada. Não: é hora de agir. Ou então calar de vez.
Pois este é o nosso tempo, este é o nosso mundo - e retomar o Senado é o desafio que se impõe agora a todos nós."
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Conexões perdidas
Aeroportos são lugares solitários, ele pensava, enquanto seus olhos percorriam preguiçosamente o lento ir-e-vir dos passageiros na sala de embarque, uns para lá, outros para cá, andorinhas flanando de asas abertas, ansiosas em seguir viagem rumo ao mistério de suas vidas. Não se detinha em ninguém em particular; seus olhos contentavam-se em acompanhar os gestos e barulhos que constituíam aquele momento. Aeroportos são como o limbo do mundo moderno, sim, talvez seja isso, almas no suspense do porvir, em trânsito para o quê, para quê, aqui não há ninguém, ninguém está aqui, é aqui que se concentra toda a expectativa de que algo aconteça - não agora, mas daqui a pouco. Quando eu chegar. Quando eu voltar. Quando eu partir.
domingo, 2 de agosto de 2009
Nelson
Recém-chegado do mato, ainda sonolento e cansado, limito-me a deixar aqui quem melhor fala com as mãos, numa arenga que ressoa com força no espírito de domingo:
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